O saber e o poder
Há uma guerra silenciosa que atravessa toda a História da humanidade: a guerra entre o saber e o poder. Ela não se trava em campos de batalha, mas em gabinetes, cortes, redações e bastidores. E quase sempre começa da mesma maneira: alguém que detém o poder enxerga, com clareza absoluta, que o semelhante ao seu lado é profissionalmente melhor — mais capaz, mais criativo, mais genial.
Diante dessa descoberta, há dois caminhos. O primeiro é o da grandeza: trazer essa pessoa para perto, ser o braço amigo, incentivar, crescer junto. O segundo é o caminho inverso, e é o que a História registra com mais frequência: obstruir, adiar, boicotar, apagar. Esses casos não são isolados. São um padrão que se repete em todas as épocas, nas ciências e nas artes. E é olhando para esse padrão que a história de Antônio Carlos Gomes, o caipira de Campinas que conquistou os palcos da Europa, ganha sua dimensão mais profunda.
Tesla: a corrente que iluminou o mundo e apagou seu inventor
Nikola Tesla desembarcou em Nova York em 1884, trazendo na bagagem uma ideia que mudaria o planeta: a corrente alternada, capaz de transportar energia elétrica por grandes distâncias e alimentar cidades inteiras. Seu empregador, Thomas Edison, havia apostado tudo na corrente contínua — e, em vez de reconhecer a superioridade da ideia do jovem engenheiro, escolheu combatê-la.
Começava a chamada Guerra das Correntes. Tesla morreu em 7 de janeiro de 1943, sozinho e sem recursos, no quarto 3327 do Hotel New Yorker, em Nova York¹. Muitas de suas pesquisas permanecem desconhecidas até hoje. A corrente alternada iluminou o mundo — e o mundo deixou Tesla apagar-se num quarto de hotel, vivendo de favor.
Mozart e Salieri: o incômodo de conviver com um gênio
Viena, fim do século XVIII. Antonio Salieri não era uma pessoa má nem um músico medíocre — era compositor respeitado da corte imperial, professor de Beethoven, Schubert e Liszt. Mas conviveu com um rapaz que, em apenas 35 anos de vida, produziu mais obra do que ele produziria em setenta e cinco. Salieri enxergou o gênio, e é exatamente aí que mora o drama.
Grande parte da rivalidade é lenda, fabricada pelo teatro de Aleksandr Pushkin (1830), pela ópera de Nikolai Rimski-Korsakov (1897) e pelo cinema de Amadeus, de Peter Shaffer e Milos Forman (1984)². As lutas internas, não. Os bastidores da corte, as intrigas, as portas que se fechavam discretamente para o jovem Mozart, isso existiu e cobrou o seu preço. O Imperador José II teria dito que a música de Mozart tinha “notas demais”.
Don Giovanni, hoje obra-prima absoluta, precisou estrear em Praga, em 1787, longe das resistências de Viena: o que Mozart ouvia por dentro simplesmente não conseguia ser compreendido por sua época. Ele morreu em 1791. A obra de Mozart permaneceu admirada após sua morte e ganhou, décadas depois, estudos fundamentais, como a biografia de Otto Jahn (1856-1859) e o catálogo organizado por Ludwig von Köchel (1862).
Carlos Gomes: o caipira que a Europa aplaudiu e a República esqueceu
E então chegamos ao nosso caipira. Antônio Carlos Gomes nasceu em Campinas, interior de São Paulo, em 11 de julho de 1836, filho de Manuel José Gomes — o Maneco Músico —, de quem herdou o ofício e o ouvido³. Fugiu de casa para o Rio de Janeiro atrás da música, deixando ao pai uma carta de desculpas que virou peça da nossa história afetiva.
No Conservatório Imperial, apadrinhado por Francisco Manuel da Silva, estreou A Noite do Castelo (1861) e Joana de Flandres (1863) — e o sucesso lhe abriu as portas da Europa. Havia, porém, uma condição que raramente os gênios brasileiros encontram: um mecenas. D. Pedro II, que enxergava na valorização das artes um dever de Estado, reconheceu no jovem campineiro um talento extraordinário. Com o apoio do Imperador, Carlos Gomes recebeu uma bolsa por intermédio da Empresa de Ópera Lírica Nacional, em contrato com o governo imperial⁴, e seguiu para Milão em novembro de 1863. Foi essa mão estendida, essa visão que enxerga além do horizonte, que colocou um brasileiro no centro do mundo lírico.
Em 19 de março de 1870, Il Guarany estreou no Teatro alla Scala e causou estupefação: era o maior sucesso lírico dos palcos italianos desde Il Trovatore, de Verdi. Giuseppe Verdi, o maior nome vivo da ópera, rendeu-se ao brasileiro, em comentários de apreço registrados pela crítica milanesa da época⁵. O busto de Carlos Gomes está lá, no Museu do Teatro alla Scala, ao lado dos grandes — Maria Callas, Renata Tebaldi e outros⁶.
Entre 1870 e 1879, Carlos Gomes foi um dos compositores de ópera italiana mais representados no Scala, depois do próprio Verdi. Nenhum outro compositor brasileiro, antes ou depois, chegou tão longe. A genialidade, porém, cobra caro de quem se adianta ao seu tempo. Fosca (1873) era música demais para a época: lírica densa, uso sistemático de temas condutores, uma orquestra que Mário de Andrade descreveria como dotada de complexidade harmônica singular.
Estreada em 16 de fevereiro de 1873 no Scala, a obra foi fria na recepção; o sucesso só veio depois de revisões em 1878 e, sobretudo, décadas mais tarde, quando passou a ser vista como sua obra-prima⁷. Carlos Gomes era também um homem de posições. Abolicionista, dedicou a ópera Lo Schiavo (1889) à Princesa Isabel, e compôs Ao Ceará Livre a pedido de D. Pedro II após a abolição no Ceará⁸. Era, nas palavras de Mário de Andrade, “em música o companheiro de Castro Alves na campanha abolicionista”⁹. E era monarquista por gratidão: recusou compor o hino da República recém-proclamada, por entender que seria uma afronta ao Imperador, a quem tanto devia. O governo provisório lhe oferecera 20 contos de réis para o novo hino, quantia que devolveu¹⁰.
A conta veio rápido. Com a Proclamação de 1889, perdeu a pensão e a base que o mantinham na Europa; a direção do Instituto Nacional de Música (antigo Conservatório Imperial), que parecia seu destino natural, foi entregue a Leopoldo Miguez — republicano, wagneriano, o nome certo do novo poder, mas será o talento certo? Miguez chegou a afirmar em documento oficial que Carlos Gomes era um compositor “cujos trabalhos deixam muito a desejar”¹¹. “Lá não me querem nem para porteiro do conservatório”, lamentou o maestro que a Europa aplaudira de pé¹².
Doente e endividado, aceitou em 1895 dirigir o Conservatório de Música de Belém, cargo criado para socorrê-lo. Morreu lá em 16 de setembro de 1896. O apagamento continuou depois da morte. Em 1922, a Semana de Arte Moderna fez questão de validar o novo demolindo o velho, e Carlos Gomes era o velho. Oswald de Andrade publicou o artigo demolidor “Carlos Gomes versus Villa-Lobos”, no Jornal do Comércio de 12 de fevereiro de 1922, afirmando: “Carlos Gomes é horrível. Todos nós o sentimos desde pequeninos”¹³.
Como um gênio de capacidade musical tão grande pôde ser apagado? A resposta é a mesma de sempre: o poder muda, e o saber que pertencia ao poder anterior vira estorvo. O resgate veio de dentro da própria trincheira modernista, e pela via do saber, não do poder. Mário de Andrade debruçou-se sobre a partitura de Fosca e publicou, a partir de sua coluna Primeiras no Diário de S. Paulo em julho de 1933, e em estudo mais rigoroso na Revista Brasileira de Música em 1934, republicado na edição especial do centenário em 1936, a primeira análise musical rigorosa da obra já feita no Brasil, proclamando-a o “ponto culminante” da produção do compositor e definindo-o como “gênio muito maior do que se supõe”¹⁴.
Resta a ironia final, das que só o Brasil produz. A abertura de Il Guarany é ouvida todos os dias na “A Voz do Brasil”, a protofonia que abre o programa oficial do rádio. Todos a conhecem; quase ninguém sabe de quem é. É o mesmo destino de Für Elise: a peça de Beethoven que todos conhecem como “a música do gás”, sem saber que é Beethoven. A genialidade sobrevive; a memória do gênio, nem sempre.
Apagar o passado, silenciar o presente
E hoje? Quantos cantores e compositores são obstruídos exatamente por serem bons, por serem afinados? O básico virou luxo. A Música e a Arte em geral foram levadas a um nível em que esses personagens já não têm espaço: estão sendo mortos antes da largada. Leonardo da Vinci seria bom demais para os nossos dias. Machado de Assis e Fernando Pessoa, com suas sutilezas, críticas e poesias, seriam massacrados na redação de um jornal nos dias de hoje.
Como seguir num mundo em que duas palavras produzem uma música, um livro? Um mundo em que pensar dói, estudar toma tempo e entender o passado é coisa de gente velha? A modernidade sempre chega com a mesma pressa de demolir o passado. Na Arquitetura, em vez de preservar o antigo e dar espaço ao novo, destruímos o passado para construir o presente e, com isso, perdemos a identidade. Câmara Cascudo já dizia: o folclore, as tradições orais e populares são a alma de uma nação; sua evolução faz parte dos processos, mas o esquecimento, não.
Somos feitos de inúmeras histórias — portuguesas, indígenas, africanas, francesas, holandesas, italianas, japonesas — e cada uma delas é um fio da nossa identidade. Villa-Lobos enxergou isso e tentou, com o canto orfeônico, oferecer nas escolas uma oportunidade aos pequenos gênios. Cartola, João Nogueira, Paulinho da Viola, Tom Jobim, todos precisaram de espaços que hoje quase não existem. Artistas precisam de apoio; sem farol para guiá-los, as tormentas do mar os engolem.
Os faróis
Eles continuam nascendo, os pequenos gênios, nas selvas amazônicas, no interior das caatingas, nas águas pantaneiras, nas serras de Ouro Preto, nos pampas gaúchos, em todos os recantos do Brasil. Estão nas nossas vilas sertanejas, nos cantos de Tonico e Tinoco, nas vozes de Dalva de Oliveira. Só precisam de alimento e de apoio. Carlos Gomes, o Maestro de Dois Mundos, provou que um brasileiro podia abrir as portas da Europa para outros artistas.
Mas os mecenas, hoje esquecidos, são um ponto a ser pensado: incentivar o pensar é decidir como seguiremos para o futuro, porque a capacidade de criar é o que nos move. Precisamos encontrar os novos Milton Nascimentos, os novos Gugas do tênis, os novos Pelés. É isso que nos compete: estender a mão e abrir os caminhos. Como cada um irá trilhá-los, já é outro assunto, para outro dia. Ao longo de toda a História da humanidade, a saída foi sempre a mesma: procurar os faróis. E, quando os encontramos, mantê-los acesos.
Os meus faróis
Falo de faróis porque tive a sorte de encontrar os meus. Minha trajetória foi iluminada por gente que o Brasil nem sempre soube aplaudir. Eles estenderam suas mãos para que eu pudesse construir uma carreira sólida na arte. E há um farol especial: a cadeira 72 da Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura, a ABRASCI, instituição fundada em 1910 que teve Luís da Câmara Cascudo, o mesmo que ilumina as páginas deste artigo, nos seus quadros.
Ser imortal dessa casa não é ponto de chegada: é um acender de luz permanente, o incentivo a seguir, e a certeza de que a Arte, quando servida com verdade, encontra abrigo. Hoje aprendi que esse caminho é o que devo seguir: estender a mão e apoiar — e procurar o apoio também, para expressar a minha arte.
PORQUE FAROL QUE É FAROL NÃO GUARDA A LUZ: ACENDE OUTROS FARÓIS.
Notas e Referências
1. Tesla morreu em 7 de janeiro de 1943, no quarto 3327 do Hotel New Yorker. Cf. WIKIPEDIA. Nikola Tesla.
2. Sobre Salieri e Mozart, ver: SALIERI, Antonio. Verbete. As lendas foram criadas pelas peças de Pushkin (1830) e Shaffer (1979) adaptada por Forman (1984).
3. GOMES, Antônio Carlos. Nascimento 11/07/1836, Campinas, filho de Manuel José Gomes. Cf. WIKIPEDIA.
4. Bolsa via Empresa de Ópera Lírica Nacional, contrato com governo imperial. Relatório do Conservatório Imperial, 1863.
5. Crítica milanesa de Il Guarany, 1870. Treccani registra triunfo.
6. Busto no Museu do Teatro alla Scala. Cf. Mari Pelo Mundo, 2015.
7. Fosca estreou 16/02/1873 Scala; revisão 1878. ANDRADE, Mário de. Revista Brasileira de Música, 1934; Diário de S. Paulo, 1933; edição centenário 1936.
8. Lo Schiavo dedicada à Princesa Isabel, Lei Áurea 1888. Brasiliana Fotográfica, BN.
9. ANDRADE, Mário de. “Gênio muito maior do que se supõe”, 1936.
10. Recusa do hino da República. WIKIPEDIA. Carlos Gomes; JUVENAL FERNANDES, biografia.
11. MIGUEZ, Leopoldo. Documento do Instituto Nacional de Música, 1890 apud CONCERTO, Acervo.
12. Carta de Carlos Gomes, 1890, expressão “nem para porteiro”.
13. ANDRADE, Oswald de. Jornal do Comércio, 12/02/1922. “Carlos Gomes é horrível”. Apud ANPPOM, Nogueira, 2005; Ciência Hoje.
14. ANDRADE, Mário de. Estudos sobre Fosca. Diário de S. Paulo, julho 1933; Revista Brasileira de Música, 1934; vol. centenário 1936.
Bibliografia ABNT
* ANDRADE, Mário de. Pequena história da música. São Paulo: Martins, 1942.
* ANDRADE, Mário de. Música, doce música. São Paulo: Martins, 1934.
* ANDRADE, Oswald de. Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 1924.
* COLI, Jorge. A paixão segundo Villa-Lobos. In: Revista Brasileira de Música, UFRJ, 2003.
* CONCERTO. Acervo CONCERTO: A vida de Carlos Gomes. Disponível em: concerto.com.br.
* GOMES, Carlos. Partituras e correspondência. Acervo Museu Imperial.
* NOGUEIRA, Lenita. O modernismo e Carlos Gomes. Anais ANPPOM, 2005.
* RODRIGUES, Lutero. Carlos Gomes, os modernistas e Mário de Andrade. Revista Brasileira de Música, v.27, 2014.
* VOLPE, Maria Alice. Indianismo e nacionalismo musical. Rio de Janeiro: UFRJ, 2022.
Fonte: https://spdiario.com.br/noticias/artigos/o-genio-indomavel.html

