A Polícia Federal apontou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como “interlocutor direto” de Daniel Vorcaro nas negociações relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Relatórios e mensagens extraídas do celular do fundador do Banco Master, tornados públicos após a retirada do sigilo de procedimentos no Supremo Tribunal Federal, mostram que os contatos entre os dois incluíam cobranças de pagamentos, reuniões e informações sobre o andamento das filmagens.
Os documentos reforçam que parte relevante das conversas identificadas pela PF estava diretamente relacionada à produção cinematográfica. Isso, porém, não significa que a corporação tenha concluído que não houve irregularidades. Flávio é formalmente investigado em um procedimento autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados à estrutura de financiamento do projeto. O senador nega qualquer irregularidade.
Mensagens mostram cobranças pelo financiamento
Segundo relatório da Polícia Federal, Flávio passou a cobrar pessoalmente Vorcaro pelo pagamento de parcelas destinadas ao filme ao longo de 2025.
Em setembro daquele ano, o senador demonstrou preocupação com atrasos e mencionou o risco de não conseguir pagar compromissos assumidos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Em outubro, afirmou que a produção estava “no limite” e pediu que Vorcaro informasse caso não pudesse continuar financiando o projeto, para que outra fonte de recursos fosse procurada.
No dia 7 de novembro de 2025, Flávio agradeceu ao banqueiro pelo apoio financeiro à produção. Dias depois, novas cobranças foram feitas. Em 16 de novembro, na véspera da prisão de Vorcaro na Operação Compliance Zero, o senador voltou a procurar o empresário em busca de uma solução para pagamentos pendentes.
A PF também identificou reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das filmagens, elementos que levaram os investigadores a classificar Flávio como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas sobre Dark Horse.
Contrato previa aporte de US$ 24 milhões
As investigações apontam que as negociações começaram ainda em 2024. Após uma reunião envolvendo Flávio, Vorcaro e o deputado Mario Frias, uma minuta de acordo de financiamento foi enviada ao banqueiro.
O documento previa aporte de US$ 24 milhões, dividido em 14 parcelas, para a produção do longa, que inicialmente utilizava o título Capitão do Povo.
De acordo com a PF, sete remessas internacionais realizadas entre fevereiro e setembro de 2025 somaram aproximadamente US$ 12,3 milhões. Os recursos foram enviados pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas, nos Estados Unidos.
Os investigadores buscam esclarecer a origem dos valores, o caminho percorrido pelo dinheiro e sua destinação final.
Celular de Vorcaro é peça central da apuração
Parte das informações usadas pela Polícia Federal foi obtida a partir da análise de um iPhone 17 Pro apreendido com Daniel Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.
O aparelho está identificado no Termo de Apreensão nº 4473731/2025, e seus dados foram submetidos a perícia pela Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. O mesmo telefone passou a ser objeto de pedidos de acesso por ministros do Supremo em meio aos desdobramentos do caso Master.
Entre os registros encontrados estão mensagens de WhatsApp, áudios, documentos e referências a comunicações feitas por meio do recurso de visualização única.
A PF afirma que não conseguiu recuperar o conteúdo de todas essas mensagens temporárias. Por isso, o fato de existirem registros de envio não permite determinar automaticamente o conteúdo de cada comunicação.
Conversas sobre o filme não encerram investigação
A divulgação dos documentos passou a alimentar interpretações de que as mensagens demonstrariam que a relação entre Flávio e Vorcaro se restringia à busca de financiamento para o filme.
Os relatórios efetivamente mostram uma sequência de contatos relacionados à produção de Dark Horse. No entanto, não há, até o momento, uma conclusão da Polícia Federal afirmando que Flávio foi inocentado ou que nenhuma irregularidade ocorreu.
Ao autorizar a investigação, Mendonça registrou que o objetivo era justamente apurar a hipótese de possíveis crimes cometidos no contexto do financiamento da obra cinematográfica. O procedimento permanece em andamento.
Flávio Bolsonaro sustenta que não há irregularidades no financiamento. Nesta semana, após a divulgação dos documentos, o senador defendeu a retirada total do sigilo e afirmou que a publicidade dos autos confirmaria sua versão de que não houve ilegalidade envolvendo o filme.
A conclusão sobre a existência ou não de crimes dependerá do avanço das diligências, da análise financeira dos recursos e da avaliação do conjunto de provas reunidas pela Polícia Federal.

