O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou que daria “prioridade total” aos recursos destinados a “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e que seguiria com o financiamento “apesar de qualquer tempestade”. A mensagem, enviada em 22 de outubro de 2025 ao publicitário Thiago Miranda, integra documentos da investigação da Polícia Federal que tiveram o sigilo retirado pelo Supremo Tribunal Federal. Naquele momento, havia atrasos nos repasses e pressão para que novas parcelas fossem liberadas.
A conversa ocorreu cerca de quatro semanas antes da prisão de Vorcaro no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master. À época, a instituição financeira já enfrentava dificuldades e risco de liquidação pelo Banco Central. O banco acabaria liquidado posteriormente, depois que uma tentativa de aquisição pelo Banco de Brasília, o BRB, não foi concluída.
Nas mensagens, Vorcaro afirmou ter liberado mais uma parcela e pediu desculpas pelos atrasos. Em seguida, declarou que seu esforço era máximo, classificou os pagamentos como prioridade e escreveu: “Apesar de qualquer tempestade vou até o fim com isso”. A documentação indica que o compromisso com a produção permanecia mesmo diante do agravamento da situação financeira do Master.
As mensagens reveladas pela investigação também mostram que, naquele mesmo dia, havia pressão para que os recursos chegassem à produção. Segundo o SBT News, Flávio Bolsonaro informou a Vorcaro que “Dark Horse” estava no terceiro dia de gravação e que o projeto havia chegado ao limite financeiro. O senador teria afirmado que, caso o banqueiro não pudesse cumprir o aporte, precisaria saber imediatamente para buscar outra alternativa. Vorcaro respondeu que resolveria a situação.
Thiago Miranda também procurou Vorcaro naquele 22 de outubro e alertou sobre o risco de paralisação das atividades caso as parcelas não fossem liberadas. Foi durante essa sequência de cobranças que o ex-controlador do Master reafirmou o compromisso com os pagamentos.
O problema, no entanto, continuou nos dias seguintes. Em 30 de outubro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma mensagem atribuída a Flávio questionando por que a documentação de uma operação havia chegado, mas o dinheiro não. No dia seguinte, novas cobranças foram encaminhadas. Vorcaro explicou que uma transferência havia retornado e que seria refeita.
A Polícia Federal afirma que Flávio Bolsonaro não aparece apenas como alguém mencionado por terceiros nas conversas. Segundo relatório da investigação, o senador atuou como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”, com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento das filmagens.
Documentos analisados pela PF apontam que o acordo de financiamento previa pelo menos US$ 24 milhões, valor equivalente atualmente a cerca de R$ 122 milhões e que, pela cotação utilizada à época da negociação, chegava a aproximadamente R$ 134 milhões. O plano previa o desembolso em 14 parcelas.
Desse total, investigadores identificaram ao menos US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 63 milhões pela cotação atual, efetivamente transferidos em 2025. Os recursos saíram da Entre Investimentos e Participações e foram enviados ao Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos. A PF relaciona essas operações ao financiamento do longa.
O fundo Havengate também está entre os pontos examinados pelos investigadores. Segundo a PF, ele havia sido criado em 2020 para um empreendimento imobiliário no Texas que não avançou e permaneceu praticamente sem movimentação durante quase quatro anos. A estrutura voltou a receber recursos em fevereiro de 2025, quando entrou o primeiro repasse de US$ 2 milhões proveniente da Entre. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
Os investigadores também afirmam ter encontrado elementos indicando a participação de Eduardo Bolsonaro na gestão dos valores captados para o filme nos Estados Unidos. Conforme relatório citado pela Folha, mensagens indicariam que ele dava orientações sobre a forma como os recursos poderiam ser administrados no país. A PF apura a origem, o caminho percorrido pelo dinheiro, sua destinação e os beneficiários finais das operações.
O financiamento de “Dark Horse” passou a ser uma das frentes de investigação ligadas ao caso Banco Master. A Polícia Federal apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas relacionadas à estrutura utilizada para financiar o longa. A existência das transferências e das conversas, por si só, não representa comprovação dos crimes investigados.
O próprio plano comercial do filme também chamou a atenção dos investigadores. Documento localizado no celular de Vorcaro previa investimento de US$ 24 milhões e estimava que “Dark Horse” poderia alcançar até US$ 100 milhões em bilheteria. A PF afirmou em relatório que a diferença entre as projeções apresentadas e parâmetros observados no mercado cinematográfico reforçou a necessidade de aprofundar a investigação sobre a viabilidade econômica e a finalidade da operação.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades no financiamento. Após a divulgação dos documentos, o senador afirmou defender transparência total sobre o caso e sustentou que a abertura das informações confirmaria sua versão de que não houve ilegalidade relacionada ao filme.
A retirada do sigilo de parte dos documentos ocorreu depois de uma determinação do presidente do STF, Edson Fachin. O ministro André Mendonça, relator de processos relacionados ao caso Master, tornou públicos documentos que permitiram conhecer detalhes das conversas, dos repasses e da atuação atribuída aos envolvidos. As investigações continuam em andamento e ainda não representam uma conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade criminal.

